ORIENTAÇÃO DE PAIS: LIMITE OU TOLERÂNCIA? COMO E QUANDO?

 

 

Um dos maiores desafios do bem viver é a relação humana. Quando esta relação envolve pais e filhos, as dificuldades são muito mais acentuadaspois, dentre vários fatores temos:

- estamos lidando com gerações diferentes (portanto, valores diferentes),

- estamos lidando com a figura de autoridade que sempre vem carregada de preconceitos,

- estamos lidando com situações novas nunca antes vivenciadas (mesmo que tenhamos mais de um filho pois cada um ocupará um lugar diferente na composição familiar).

Estamos lidando com uma vidinha que quer experimentar, provar e tirar conclusões próprias. Se estivermos nos referindo a crianças, suas travessuras embora propiciando muitas "dores de cabeça" estão enquadradas no campo exploratório do conhecimento. Se adolescentes, a verdade é a mesma embora os riscos sejam maiores. Mas, tanto a meninice como a adolescência tem sede de experimentar o novo, fazer conquistas para provar que podem, e que os mais velhos " não sabem nada". O treino à frustrações inicia aí, exatamente quando muitas vezes percebem que não deu muito certo o que pretendiam articular.

Somado a tudo isto temos as características pessoais tanto dos pais como dos filhos que damos o nome genérico de "“temperamento". Não há como negar fatores biológicos que fazem parte do código genético mas, ao lado disto, temos que refletir como lidar com tudo isto: modificando expectativas? Exigindo mais? Permitindo mais? Facilitando ou dificultando as aquisições? Colocando limite? Impondo ou pedindo?

Se, há 40 ou 50 anos atrás usávamos a palavra limite para determinar acidentes geográficos, hoje a empregamos rotineiramente na educação. Verificamos com isto o quanto antes os pais ministravam os aspectos que julgavam fundamentais com muito mais naturalidade do que os de hoje que, por se sentirem inseguros, alguns temendo perder o afeto dos filhos, com muita freqüência tornam-se permissivos. Se a palavra limite surgiu com esta nova conotação é porque surgiu também a necessidade do seu emprego; não houvesse esta necessidade, o vocábulo iria se manter sem a aplicação no meio educacional. A frustração faz parte da vida e para isto devemos preparar nossa prole pois só assim os conduziremos para a independência, para a luta de algo que se deseja, para que suportem "uma espera" saindo do imediatismo que acompanha o indivíduo imaturo.

O limite a que nos referimos, de uma situação educacional, sem pretensão de chegar a nenhuma definição, poderíamos dizer que é o espaço que ocupamos no universo entre deveres e direitos na relação que a sociedade estabelece com todos.

Desempenhamos papéis diferentes: cabe ao pai impor limites e cabe ao filho tentar quebrá-los, quase que numa relação dialética, preparando-os para o futuro ao enfrentarem outras situações.

Os papéis bem definidos outrora (pai como mantenedor, mãe dentro de casa) , sofrem modificações sem serem substituídos por outro tipo de organização tanto racional, como emocionalmente, colaborando para que a insegurança cresça, deixando um rastro de culpa e de pouca elaboração. Assim como o pai passou a trabalhar maior número de horas, a mãe se profissionalizou, principalmente dos anos 80 para cá (dado estatístico). Sem o preparo devido, tenta-se suprir a falta pela permissividade, pelo "tudo pode" , pelo "já que estou tão pouco com o fulano..." Junta-se a isto outros fatores originários desta mesma situação: "o esperar" que antes ocorria, com um beijo e um abraço na hora da chegada da escola num clima ameno e tranqüilo, foi trocado por um "chegar junto com", onde a pressa se estabelece pois as atribuições de ordem prática não podem deixar de ocorrer: banho, jantar, lição, etc.. É o atropelo que vai se estabelecendo...é o ouvido que se torna menos sensível...é a televisão e o vídeo-game que se tornam armas poderosas para fazer a contenção atitudinal...Tudo junto gera desorganização, respostas rápidas dos pais servindo como modelo para os filhos, afastamento, irritação, e portanto...quebra das ordens.

Evidentemente, os filhos vão se apoderando cada vez mais desta tônica , vão invadindo, espremendo o mundo adulto cada vez mais, com um nível de exigência exacerbada, obtendo respostas mais condescendentes até o momento em que os pais "acordam" e, literalmente não dão mais conta.

QUANDO?

Uma vez necessária a colocação do limite é porque algo saiu do processo natural de aprendizagem para cair no mal uso. Há de se pensar portanto na interferência.

Em situações não estabelecidas, não cristalizadas com estas características, diria que o limite se dá de maneira gradual, no dia a dia, na rotina. Quando pequenos,, fazer uso de estratégias até punitivas não deixa de ter sua validade desde que, esteja extremamente vinculado ao episódio quanto ao tempo, ao conteúdo e com a pessoa mais próxima, ou seja: apertou botões do elevador no decorrer da manhã de maneira indevida e o zelador fez a queixa para a mãe. Nenhum benefício teremos se esta criança for repreendida à noite, pelo pai, que achou por bem tirar-lhe a coca-cola do jantar.

Quando? No presente, sem postergação há que se fazer mini contratos aqui e agora.

Quando? Após termos percebido a diferença entre resistência para galgar autonomia e resistência para guerrear. Esta leitura deve acontecer sempre para que não surja o conflito desnecessário.

Quando? Ao lidarmos com problemas reais, de transtornos maiores que a nossa rotina (doença, morte, desavença entre adultos, separação) fazer uso de explicações verdadeiras assim que as circunstâncias possibilitem. A criança tem pensamento mágico e é onipotente; ao se ver envolvida em qualquer destas situações, traz para si a causa do episódio; esta "culpa" colabora para desencadear "guerra interna" que acabará vazando para o ambiente mais cedo ou mais tarde.

Quando? Ao tomar atitude inadequada, com certeza deixará rastros para que pais ou professores percebam e possam "contê-la", quase que lembrando um processo auto-punitivo. Também a intervenção deverá ocorrer assim que se tomar conhecimento do assunto, sem adiamentos pois a angústia do filho aumentará quanto maior for o espaço entre a peraltice e a "descoberta".

COMO?

Depois de ter sido percebida a necessidade de interferências, chegamos ao âmago da questão: como ? Trata-se de uma relação complexa, que se reduz à expressão, comunicação, ou seja, tornar comum o clima que surge entre pais e filhos, professores e alunos.

Mesmo sem receita pronta, podemos levantar algo de ordem prática, como se fossem pequenas dicas:

- reflitamos com bastante calma sobre o que é natural, o que é esperado para cada faixa etária antes de tomar alguma atitude.

- a ameaça não traz nenhum benefício; pelo contrário desperta no outro uma vontade muito grande de verificar esta força. Propicia portanto, desafios.

- evitar a condicionalidade. Ex.: se comer ganha... ou se não comer apanha...Ou lidará com o medo ou estará aprendendo a lidar só pelo interesse. Negócios se processam em empresas e não em casa. Além disto leva a criança a aumentar a resistência àquela situação.

- ordens claras e verdadeiras. É mais comum do que se imagina o sorriso benevolente dos pais ao tentarem corrigir com um "não". A criança ou o adolescente vai ater-se ao subjetivo e não à fala concreta. Isto é distorção, incoerência do mundo adulto contaminando as posturas dos próprios filhos.

- sempre, sempre, sempre a verdade ajudando-os a irem elaborando as conseqüências de maneira saudável: "se tomar sorvete vai piorar do resfriado".

- diminuir ao máximo as ordens. A fala constante, as frases repetidas perdem o efeito. Organizar refeições mediante parâmetros possíveis de crianças de tenra idade poderem compreender, antecipando pois a prevenção funciona na maior parte das vezes:" ...assim que acabar a novela "x" iremos jantar..." Mostra-se respeito pela programação que no momento está despertando tanto interesse e ao mesmo tempo aquilo que foi combinado é assimilado com maior facilidade.

- parar de intelectualizar; há sentimentos por trás de tanto raciocínio...

- manobras onde se coloca afeto, apesar de serem na maioria das vezes irreais, trazem desconforto num primeiro momento e crença num segundo momento se forem repetitivas, frases como: "...não gosto mais de você..." ou em explosões mais intempestivas: "...vou me embora...não agüento mais..."

O "tudo pode" muitas vezes traz um peso de responsabilidade que ainda não podem carregar. É com a dirigibilidade que temos que contar para que se sintam seguros e amparados. É muito difícil para uma adolescente (considerando a existência do machismo que inegavelmente ainda permanece entre nós) dizer "não vou para a cama com você por não me achar preparada" do que encontrar na " proibição" dos pais a causa da negativa. Provavelmente até para se sentir mais confortável, usará argumentos denegrindo os pais: "...são caretas...não me entendem...mas se descobrirem..." O alívio de ter nas costas dos pais a possibilidade do desabafo, leva a garota de 14 ou 15 anos a encontrar a justificativa necessária que lhe desanuvia.

Acima citei ligeiramente a expectativa dos pais. Retomo para enfatizar: "roubar" o carro do pai para dar uma voltinha não é correto e os pais não devem aplaudir. No entanto vejo pais que se sentem totalmente derrotados porque nunca esperavam isto !!! Este exemplo é extremamente comum e praticamente esperado. A expectativa lançada foi muito alta. Aceite seu filho como ele é e não como gostaria que ele fosse: perfeito!

Outra situação da ser citada: separar quando se trata da famosa "má criação" ou se trata de algo que, embora não correto, deve ser enxergado como "experiência", como mexer no shampoo do banheiro, por exemplo. Ter certo grau de tolerância nestes casos é necessário pois faz parte da natureza do homem a exploração.

Bom senso, amar sem culpa, colocar os limites certos, embora fáceis de falar mas difíceis de executar, ainda é a melhor solução.


 

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