O "VELHO" COMO CONTADOR DE HISTÓRIA: UM BENEFICIO PARA TODOS

 

 

Embora querendo me dirigir à terceira idade, começo fazendo uma retrospectiva e um paralelo entre os atuais "sessentões" e o "trintões".

Existem verdades irrefutáveis:

Aos mais velhos: todos fomos bonitinhos, mocinhos, "durinhos", magrinhos.

Aos mais jovens: todos chegarão às rugas, à calvície ou ao cabelo branco.
Durante este processo, todos passamos do riso infantil à contestação da adolescência, enfrentando o famoso conflito de gerações. Atingindo a fase adulta definimos com um pouco mais de clareza nossos valores buscando dirigir a vida com maior independência.

Ultrapassada estas fases, há o preparo para a vida prática. Nesta época, é comum já estar-se em companhia de alguém que, tendo feito um trajeto semelhante conseguiu seqüestrar sentimentos afetivos, surgindo o desejo do compartilhar, inerente ao ser humano tanto biologicamente como psicologicamente.

No entanto, embora todos tenhamos passado por estas etapas e outros ainda o farão, noto uma grande diferença entre estas duas gerações enquanto o esforço para ultrapassa-las que deve ser sempre muito lembrada pelos mais velhos.

Em tempos idos, as faculdades em menor número exigiam do candidato dedicação plena: não havia férias, feriados e fins de semana. Em sendo a classe média extremamente diminuta nem todos conseguiam atingir o patamar do nível universitário; em sendo assim, a luta pela sobrevivência começava mais cedo: antes dos dezoito anos já se trabalhava de estafeta, de vendedor, optava-se pelo funcionalismo público para ser " escriturário", pequeno comerciante, etc. Absolutamente não quero dizer que tenha desaparecido estas funções; quero dizer apenas que as opções há cinquenta anos atrás estavam mais voltadas a este perfil quando viam inviabilidade de uma formação universitária. Não havia a possibilidade de " esticar" a adolescência.

A responsabilidade sobre a própria vida, a busca para sair do ovo materno, a luta pela independência me parece ter sido mais contundente na geração mais velha do que a atual pois não se tinha possibilidade de escolha: ou ingressava-se rapidinho no terceiro nível ou ia-se trabalhar para ajudar tanto a família como a si próprio constituindo novo núcleo.

Sobressaio isto porque não é incomum a tendência do mais velho olhar para trás e pensar naquilo que poderia ter feito e não naquilo que de fato produziu, fez, lutou. O fato de estar, algumas vezes aposentado, leva-o a viver e sentir apenas o presente ajuizando-se sem utilidade, rejeitado por não mais produzir, empurrando-o à um estado deprimido.

Não quero denegrir o jovem atual mesmo porque exaltei a atitude de muitos no início destas considerações mas gostaria de lembrar aos mais velhos o quanto se sobressaíram no decorrer da vida, o quanto se doaram para chegar ao sustento da família, o quanto valor existiu na luta, quantas passagens difíceis foram superadas, com que orgulho devem olhar para os descendentes sabendo-se colaboradores maiores desta juventude, mesmo estando os filhos entre aqueles que não tendo obtido o êxito esperado, mantém os pais como provedores.

Meu convite é para que todos pensem nas suas vitórias, nas suas origens, nas transformações que propiciaram na vida dos outros, na própria vida e a grande colaboração que fizeram junto à sociedade.

Colaborando com este quadro, a sociedade esquece que os benefícios que vivem no presente, deve-se ao passado construído por aqueles que estão com idade mais avançada. Ao invés de colherem informações, de exaltarem as construções feitas nos mais diversos setores e transformarem o " velho" numa escola de aprendizes, além de ignora-los,não é incomum imprimir-se um tom de menosprezo. A pouca valorização é injusta principalmente por ser regra da natureza a passagem por todas estas etapas.

Não querendo absolutamente minimizar o trabalho de historiadores (pelo contrário, exalto-os), seria muito interessante se ouvíssimos as experiências vividas com assiduidade pois é muito rico tomar conhecimento através de depoimentos de quem viveu a história com os detalhes que envolvia família, preocupações, atitudes tomadas, mudanças que precisaram acontecer mediante algum fato significativo (política, revoluções, o aparecimento da tecnologia, as transformações de hábitos sociais, etc). Poderíamos dizer que o que estudamos nos livros seriam completados com o relato oral ou com um registro " caseiro" que vem, com certeza carregado de emoção.

Treinar o ouvido atentando às informações que o idoso tem a ofertar é, não só benefício para ele que se sentirá sustentado e apoiado como também fonte riquíssima de aprendizagem podendo-se fazer paralelos entre o hoje e o ontem.

Se faz necessário enaltecer-se em relação aos anos que ultrapassaram, relembrar com satisfação do que fizeram, imprimir alegria nas conquistas, olhar o que passou carregado de satisfação.

Façamos do "velho" um grande contador de histórias! Todos teremos muito a ganhar!

COMO SE PROCEDE

Permitindo que o passado venha à tona com temas selecionados pela própria pessoa.
Movimentando este passado para o presente, mostrando desta forma a eternização dos indivíduos através dos atos praticados e do testemunho vivenciado.
Valorizar estes ricos depoimentos pontuando que todos temos que nos responsabilizar em relatar experiências vividas pois é assim que se processa a cultura: uma geração contando à outra.

ESTRATÉGIAS

Registrando os fatos colhidos: gravador e/ou computador.

ATUAÇÃO

Simplesmente como condutor, com interferência mínima quanto aos relatos
Estar junto nas emoções: ouvir dores e queixas. Conduzir à lembranças festivas e satisfatórias.
Levá-los a descobertas sobre o que pode e deve fazer: se a vida limita de um lado, amplia de outro.

 

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Eneida Souza Cintra    Cons:  Rua Lisboa, 196    SP   Tel:30880957   Cel:91533705
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