A DOR DO ESTUPRO
Assistindo a várias reportagens televisivas sobre estupro, deparei-me com uma questão que é sempre colocada em pauta: o incentivo às vítimas de procederem a queixas, e a necessidade imperiosa de que esta articulação aconteça, para que vá, creio eu, num processo lento mas contínuo, fortalecendo as pessoas que passaram por este trauma.
Fico a me perguntar sobre a dor destas mulheres (embora possa acontecer com homens também), frente a essa situação que, minimamente é altamente desastrosa. Estimula-se o registro, desconsiderando essa faceta. Evidente que não nego o benefício desta atitude; no entanto, não vejo movimento algum em relação ao como se estabelecer essa denúncia. Atualmente, segundo a lei, a vítima deve dirigir-se à uma Delegacia, do jeito que estiver, sem banhar-se, sem limpar-se, para que seja comprovada a situação. Esta é a postura oficial e legalmente estabelecida. Meu questionamento: não há outra solução? Por que a vítima deve ir até a delegacia? Não há maneira de minimizar essa situação? Não haverá entre nossos governantes a vontade de destacar um corpo paramédico que vá até a vítima?
Trata-se de um quadro extremamente delicado, complicado e complexo, tendo em vista que, além da vítima ter tido seu direito de escolha usurpado, a legislação não lhe permite o mínimo de tempo para recompor-se de tal violência. O manifesto da repulsa, real e simbólica deve ser adiada por mais tempo; machucada física, moral e emocionalmente, deve continuar a expor-se, agora não mais para o estuprador e sim para própria justiça. Compõe-se um segundo momento portanto, que não deixa de ser violento e traumatizante: ser vista, ter a secreção vaginal colhida, ser examinada, provando que alguém a penetrou, expor suas feridas reais e simbólicas é outro desrespeito e agressão não deixa de ser o continuísmo do trauma sofrido. Só que este, amparado pela lei.
Quanto às conseqüências que ocorrerão, nada ou quase nada podemos falar. Como reagirão? Deixará seqüela ou não? Superarão com facilidade ou será lento o processo de recuperação? Várias são as possibilidades frente a esses momentos stressantes. No entanto, percebo que um número significativo de pessoas que passam por esse episódio, se bem assessoradas, conseguem equilibrar-se novamente.
Há diferenças individuais que não podem ser generalizadas e que devem ser levadas em conta pelo psicóloga que der atendimento. Trata-se de perceber o como cada uma responde à esse tipo de violência. Há mulheres que não reagem, mantendo-se passivas; há aquelas que se revoltam dando lugar ao ódio; há aquelas que se mostram atemorizadas expandindo esse medo para outras situações. Sendo assim, a única afirmação que ouso fazer é a necessidade premente de auxílio psicológico que vai ser continente às conseqüências individuais, em cima do que aquele ato representou para ela. Há também que se considerar as variáveis que compuseram a situação: houve arma, ameaça de morte, maus tratos físicos como socos e pontapés, houve mordaça, houve chantagem por ser conhecido e dono de algum segredo? Que lugar ocorreu o episódio? Em casa? Foi levada a um lugar ermo? Essa cena foi assistida por algum "colega", por praticar o voyerismo?
Volto ao início das minhas ponderações: tentar sensibilizar e alertar as vítimas para denúncias, é adequado mas, é exigir demais de uma pessoa tão fragilizada tomada pelo asco, pela repugnância, pela revolta. Há que se pensar numa assistência eficaz, que se dirija até onde estiver a vítima, que a acolha. Mesmo assim, já fará grande esforço .
Se o percurso continuar sendo o estabelecido atualmente, a grande maioria das mulheres continuará no anonimato. O mínimo que essa pessoa deseja é ser socorrida por familiares, é ser acolhida na sua dor, é banhar-se, é vomitar, é tratar dos ferimentos quando há, é tentar "fugir" o mais rápido possível daquela situação. É buscar amparo, recolhimento da dor. Este é um ponto vital. Da mesma forma que existe telefone para resgate em situações de trânsito, há que se pensar num pronto atendimento, com aparato clínico e laboratorial que chegue até a vítima.
Outro aspecto a ser considerado é a própria vergonha, é a humilhação pela qual passou; é a fuga à mais uma exposição. É o reviver da tortura. É o fato de ter sua sexualidade exposta. É a constatação de ter tido seu direito de escolha seqüestrado, causando-lhe dores emocionais que muitas vezes são tão grandes que a impossibilitam de dirigir-se à uma delegacia. É rememorar a submissão ao poder do outro. É o medo de uma vingança, quando há situação em que é convocada ao reconhecimento, mesmo considerando estar "protegida" por espelhos ou câmaras. É a culpa que muitas vezes aparece, embora sendo vítima.
Novas estratégias, outro movimento, novas providências devem ser elaboradas. Caso contrário, temos, em parte, a inversão, da situação: a vítima provando sua inocência; a vítima dando continuísmo à dor; a vítima sendo "cobrada" pela "não denúncia".
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Eneida
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