O DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL EM CASOS DE DÉFICT ESCOLAR

DIFICULDADE ESCOLAR

 

 

Todos temos clareza de que, se alguém se dirige a um consultório médico ou odontológico, algo está acontecendo. A partir do primeiro encontro "onde o paciente coloca suas queixas" o profissional parte, na maioria das vezes, para uma investigação que se alicerçará, provavelmente, em exames laboratoriais (raioX, eletros, laboratório clínico, etc).

Procedimento semelhante deve, sem dúvida, ocorrer com a psicologia, principalmente dentro da área clínica que lida com distúrbios de aprendizagem, dirigida a uma população infantil ou de adolescentes. Infelizmente, não é sempre que isto acontece.

Como é comum haver, nestes casos, a presença de comportamentos inadequados, a tendência natural é suspeitar de algum comprometimento na área emocional, comprometimento este que seria o gerador do déficit escolar. Esta maneira simplista de enxergar a problemática se inicia com o discurso dos pais que para justificarem o insucesso do filho (de maneira inconsciente), citam a displicência, a ausência de responsabilidade, a "vagabundagem", atitudes de esquiva (fuga), timidez, etc., quase que a induzir o parecer do profissional. Embora muitas vezes irreal, justifico esta apreciação familiar tendo em vista que é mais fácil, mais "leve" para os pais, atribuírem a "culpa" ao ambiente externo ("não acertamos...fomos muito rígidos...fomos muito permissivos...") do que se depararem com a hipótese de que algo não vai bem com o seu filho, orgânica ou intelectualmente.

A partir desta premissa, onde são descritas com detalhes as situações de quebra de limite, desafios, contestações, além do baixo rendimento, o terapeuta pode acabar incorrendo num grave erro: inicia o estudo do caso pelo aspecto emocional e, ao constatar os distúrbios nesta área, cessa a busca, atribuindo a causa a esta vertente ou, mesmo que não pare a pesquisa, seu olhar continua voltado ao emocional, minimizando o valor dos achados nos demais tópicos. Assim como pode ser real esta "descoberta" (distúrbio emocional como causa principal, emperrando o processo acadêmico), pode ser apenas a consequência de uma série de frustrações acumuladas, cuja origem está em outra área.

Quando pouco investigado, este diagnóstico precipitado que toma o nome genérico de "bloqueio emocional", fica sendo tratado por anos e anos e, geralmente, sem mostrar resultado; é como se déssemos antipirético para tirar a febre, sem aplicar antibiótico.

A investigação deve ser a mais ampla possível, procurando-se fazer uma análise não só quantitativa como qualitativa, para chegarmos a hipótese e, em seguida, a conclusões bem fundamentadas. Além deste procedimento, podemos solicitar a presença de um neurologista se houver alguma suspeita neste campo.

Como ilustração, tomemos um caso: um garoto de dez anos é colocado numa sala, sem nenhuma resistência pois o vínculo com a pessoa que estava com ele já havia se estabelecido e a relação era bastante amistosa. Para uma observação mais acurada, colocou-se-lhe uma situação problema: "Se perdêssemos a chave desta porta e precisássemos sair, o que você faria?" A dificuldade para encontrar a solução foi intensa e só depois de muita indução, o garoto arriscou que talvez pulasse a janela (o local era térreo, a janela baixa e dava diretamente para o ambiente externo).

Por ter na sua história a presença de uma figura paterna extremamente rígida, austera e com nível acentuado de exigência em relação a acatar ordens, a primeira conjectura que houve foi em cima "do medo muito grande" que o impedia de raciocinar pelo fato de que "pular a janela" teria um significado de quebrar limite. A partir daí se constatou, através de testes que, realmente o sujeito estava emocionalmente prejudicado. Por conta disto, abordou-se o caso ludoterapeuticamente, sempre apoiando-se na argumentação de que o distúrbio, advindo de uma forte repressão familiar, o impedia de aprender. Sua defasagem escolar, por ter aumentado muito com o passar dos anos, ilustrou que o caminho não era aquele e que o caso exigia maior acuidade. Constatou-se por fim, que o garoto era portador de uma disfunção neurológica que, apesar de pequena, trazia-lhe os transtornos escolares. Caso a situação tivesse sido elucidada precocemente ter-se-ia focado, através de exercícios, o ponto-chave causador da inoperância.

O paciente apresentava comprometimento emocional sim mas, advindo dos inúmeros fracassos que fora acumulado. Não era uma criança tão frágil a ponto de não encontrar meios para sobreviver à austeridade paterna; pelo contrário, mostrava bons recursos quanto a processos adaptativos de cunho afetivo-emocional. Desvirtuou-se, neste caso, por contaminação, o diagnóstico.

Meu objetivo aqui, está longe de ser a defesa da idéia de que só existem casos de origem orgânica; minha ênfase recai sobre a necessidade ímpar de um diagnóstico amplo, que possa ser sustentado por grande gama de hipóteses, com o estudo expandindo-se para as três grandes áreas: cognitiva (intelectual), afetivo-emocional e motora em busca do ponto de origem, da célula-mãe. Assim, os primeiros achados não devem ser considerados como definitivos.

No exemplo citado, a disfunção provocava um rebaixamento do raciocínio lógico, impedindo a criança de encontrar alternativas; não extrapolava para situações novas, experiências anteriores.

Pergunta-se: nesta caso, se bem encaminhado o processo, haveria possibilidade de resgate total? Apesar de ser muito difícil responder, poderíamos arriscar, dizendo que grande chance esta criança teria de estar desenvolvendo este aspecto e, mesmo que não atingisse o patamar ideal, pelo menos o nível de exigência acadêmica teria sido adaptada às suas possibilidades, sem o desgaste que a expectativa traz no seu bojo.

Embora parecendo repetitiva, quero enfatizar que meu objetivo não é negar que déficits na aprendizagem não possam ser originários do emocional, mesmo porque estaria negando a minha própria formação básica. No entanto, a exploração deve ser ampla, o estudo cuidadoso e o diagnóstico muito claro. Há os casos inclusive que, por apresentarem discrepâncias mais evidentes quanto à situação padronizada que a cultura e tradição impõem às escolas, passam não apenas a serem vistos, como passam realmente a "funcionarem" como limítrofes, sem o serem; são casos que tipificam uma situação emocional como causadora deste quadro. Ficam como exemplo, casos freqüentes de adoção que, embora sem subsídios familiares anteriores, notamos serem portadores unicamente de desordens afetivo-emocionais que se manifestam no processo escolar. São situações onde lidar com a verdade se torna conflitante para os próprios pais que, neste caso, também necessitam de orientação familiar, além do atendimento feito à criança.


 

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