O PERIGO DA INATIVIDADE PARA O DEFICIENTE
Cercados por uma sociedade cobradora (representada pelos próprios pais que, contaminados, exigem dos filhos agenda lotada de cursos), as crianças e adolescentes perderam a liberdade de escolher seu lazer, desde muito cedo. Numa corrida competitiva devem cumprir com a expectativa, em nome de um futuro promissor se for o "melhor dos melhores" e, um futuro sem realizações, se não fizerem parte desta maratona.
Em contraposição, o que fui percebendo no decorrer dos anos, é que os indivíduos portadores de alguma deficiência mental (déficit, distúrbios, comprometimentos neurológicos, etc.), não correspondendo portanto ao padrão, poucos estímulos recebem. Com raras e honrosas exceções, escolas, instituições, clínicas, por mais alicerces que ofereçam, mostram ter esgotado os recursos no final de uma adolescência ou início da fase adulta. A partir desta idade, estes jovens passam a usufruir tão somente da companhia dos pais seja dentro da própria casa, seja em compras, seja em visita a familiares e/ou amigos. São, desta forma, "impedidos" de terem um espaço individual, não mais podendo se apropriar de conhecimentos por não vivenciarem situações facilitadoras destas experiências. Afirmo que: a presença de estímulos não só mantém o que já foi internalizado como auxilia a aquisição de novos conhecimentos colaborando fortemente para o equilíbrio emocional.
Oponho-me contundentemente a esta inversão: aos mais favorecidos que abstrairão da convivência cultural tudo o que precisarem mesmo sem estas cobranças, são cerceados pela abundância de ofertas. Aos menos favorecidos, os estímulos são minimizados; o potencial senão desprezado, fica no mínimo esquecido, tirando-lhes a oportunidade de se sentirem como construtores de si mesmo. A passividade familiar acaba tomando conta, sendo muitas vezes justificada por um conformismo distorcido. O "...não adianta..." "... ele é assim mesmo..." "...cada um com sua cruz..." São chavões que quando cumpridos, colaboram para diminuir as potencialidades do sujeito que se sentindo pouco valorizado cumpre a profecia que o mundo adulto lhes passou: "... não adianta..." "não consigo..." etc. fechando desta forma o processo de retro alimentação. Também percebo a presença de sentimentos como o dó, a comiseração, a piedade, como fontes inspiradoras de pouca busca, baixa expectativa, pouco investimento.
Creio que grande parte destas posturas adultas, traz à tona a dimensão de nossa impotência. Esta sensação, posta em paralelo com as exigências sociais (ascenção financeira, profissional, status quo, etc.), acaba gerando um movimento contrário à luta, à perseverança, dando lugar ao abandono, a letargia, ao já citado conformismo.
Se, para a população preservada que pode sozinha retirar da vida experiências positivas a inatividade é condenada, a vida confinada ao contexto doméstico para os portadores de algum déficit são, no mínimo desastrosas! Não posso aceitar esta proporção que parece ser a verdade estabelecida: aos que tem menos recursos intelectuais, oferta-se menos estímulos, apresentando mais condições aos favorecidos.
Evidentemente, não quero generalizar, mas é muito comum exigir-se menos do que podem dar. Ao serem "cobrados", sentem-se fortalecidos pois traduzem esta exigência como estímulo às suas capacidades dando origem à crença pessoal até então abafada, advinda da importância que lhes damos. É como se, ao ouvir-nos, decodificassem: "...bem, como ela está dizendo que sei, que consigo, é porque sei e consigo..." É óbvio que não podemos cobrar daquele que não pode "pagar"; no entanto, o que percebo é caminhar-se para o extremo oposto ou seja: minimiza-se o potencial oferecendo-lhes pouco.
Da inatividade podemos esperar apenas atitudes negativas, exacerbação de emoções não controladas, sexualidade levando à agressividade, apatia, comportamentos regredidos, insatisfações, melancolia, etc.. O que tenho observado também é que, quando a família se depara com períodos mais contundentes, encaminha-os para um processo terapêutico quase que a solicitar do profissional que os adeque emocionalmente. Não posso dizer que não trará benefício pois no mínimo, este adolescente estará sendo visto. No entanto, longe estamos do ideal pois exatamente por ter um potencial intelectivo aquém dos parâmetros, dificilmente conseguirá absorver significados, traduções ou proceder a transferências. O processo terapêutico convencional portanto, pouco resultado apresenta. Se faz necessário que os percebamos inseridos em contextos diversificados propiciando desta maneira o surgimento de sentimentos passíveis de serem trabalhados tais como frustração, agressividade, impulsividade, labilidade, afetividade, auto-estima, etc..
Situações desafiantes, onde o entrelaçamento dos conhecimentos esteja presente, oferecendo a possibilidade de que percebam a presença de "tudo no todo" não é utopia apenas para os favorecidos. É absolutamente necessário oferecer a estes jovens e/ou adultos um espaço onde possam compromissar-se pelo menos duas ou três vezes por semana, senão diariamente, de preferência com pessoas de perfil semelhante, levando-os a se sentirem iguais a todos nós que temos socialmente, profissionalmente e culturalmente afazeres estabelecidos. Repito que: a incompetência colocada sobre estas pessoas deveria encaixar-se no mundo adulto que se sente incapacitado para investir, lutar e conseguir ver que atrás de um deficiente intelectual tem um ser emocionalmente preservado que apresenta as mesmas necessidades que nós: auto-confiança, sentir-se capaz, produtivo, com responsabilidades.
Portanto, voltando ao tema proposto, "O perigo da inatividade para os deficientes", vimos que:
- não temos o direito de negar uma rotina de vida que estabeleça parâmetros sociais e culturais.
- a exigência bem dosada é saudável para construção da auto-imagem.
- a inatividade propicia o aumento de fantasias que podem se tornar maior que a realidade, trazendo consequências patológicas para a vida emocional.
- as emoções e os sentimentos conhecidos por nós, também fazem parte da vida do intelectualmente rebaixado e, quando não explorados podem trazer desvios comportamentais mais sérios (sexualidade versus agressividade).
- o objetivo de todos nós é sempre alcançar uma melhor qualidade de vida emocional: que seja também este o objetivo para os portadores de alguma anomalia só
- encontrado na medida em que forem supridas as suas necessidades. Todos temos deveres e obrigações; eles também devem ter para se sentirem úteis.
- perceptivos e sensíveis captam com facilidade posturas que os minimizam, que os desconsideram, incorporando esta incompetência que "dizem" ter.
- "prisioneiros de si mesmo", sempre com dirigibilidade exageradamente presente (só vão onde os pais estão) não desenvolvem a criticidade, não discriminam situações perigosas daquelas que fazem parte do cotidiano.
Em momento algum pretendí passar a mensagem de que casos comprometidos, pelas mais diversas razões, atingirão o patamar da normalidade. Sei o quanto é difícil e o quanto muitas vezes o desânimo toma conta das famílias. O que quero pontuar é que sempre existe um potencial a ser respeitado e, portanto a ser desenvolvido.
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Eneida
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