CASAMENTO: UNIÃO AFETIVA ENTRE DUAS PESSOAS.
Quando surgem diferenças, mantém-se a relação ou procede-se à separação?
Como e quando tomar esta decisão?
Todos precisamos de companheiro/a. Segundo a psicologia, há dois fundamentos primordiais na vida de um adulto saudável: amor e trabalho.
Como em qualquer relação há os mais flexíveis, os mais compreensíveis e há aqueles mais radicais, cuja tolerância é baixa para enfrentar alterações. Tenho acompanhado alguns casais cuja discrepância entre eles começa a existir mediante atitudes que um ou outro passou a tomar, diferentemente de vezes anteriores. As colocações " ... mas você não era assim... você se modificou...antes saia mais comigo..." são freqüentes no consultório.
O que leva a esta modificação? O que colabora para que uma união seja afetada trazendo dissabores a ambos?
Quando nos unimos a alguém, sempre se tem certeza de que a decisão é a mais acertada para uma felicidade infinita. No entanto, descobre-se com o passar de alguns anos que a vida é dinâmica, se transforma, situações se modificam e que estas mudanças pessoais algumas vezes acabam interferindo na união do casal.
As pequenas divergências, as discussões, as " briguinhas" fazem parte da convivência que começou a dois e depois transformou-se em uma família com a vinda dos filhos. Ao abordar este assunto, refiro-me a situações mais contundentes, onde se percebe um clima mais tenso, menos propício ao diálogo, ao entendimento.
As perguntas que lancei no título são praticamente impossíveis de responder pois cada caso é um caso, não há regra pronta mas há algumas considerações a serem feitas com o intuito de reflexões.
É inegável que a comunicação está presente em toda e qualquer relação, independente do afeto. Um gesto carinhoso pode ser desconsiderado pelo companheiro que sequer percebeu o ato. Uma palavra mal colocada pode dar origem a uma discussão mais acalorada se não houver tolerância e maior compreensão por parte do companheiro. Sempre tento mostrar que a leitura por trás do que é feito ou dito deve acontecer, perguntando-se sempre: houve intenção de agredir ou ele/a distraiu-se e respondeu abruptamente? Até que ponto um dos dois passa a ser altamente controlador e usa como instrumento o aborrecido inquérito, querendo estar a par dos detalhes mínimos do dia, enquanto o investigado chega buscando apenas o regaço da companheira? Ou, ao contrário, um deles cheio de novidades para contar, com vários planos estabelecidos e não consegue ser ouvido por não ter o outro mostrado interesse mínimo?
Muitas vezes as mudanças ocorridas acontecem conjuntamente, com bom entendimento. Outras vezes um dos parceiros não consegue entender o que está acontecendo sofrendo apenas a sensação da estranheza ou de certa distância.
Acredito que seja nestes casos e nestes momentos que a terapia de casal pode se fazer presente. O terapeuta entra como mediador, tentando traduzir o que um quer dizer e o que o outro não consegue entender (na maioria das vezes por influência do emocional que é forte bloqueador da compreensão). Algumas situações podem servir como exemplos:
- Não são raros os casos em que um dos cônjuges quer modificar alguns hábitos, dar novo rumo à vida e não consegue expor-se; inicia então uma série de tomada de atitudes, esperando que o companheiro/a tome a decisão por ele/a.
- Em outros casos, quando uma das partes se acha atingida, está percebendo erroneamente: o companheiro está apenas atravessando uma fase mais complicada, preocupações à deriva totalmente desvinculada do afeto matrimonial que continua “ intacto” . Trata-se apenas e tão somente de medo, insegurança, fruto de fantasia.
- Há ainda os casos que é quando um deles está infeliz e não reconhece com clareza a origem desta confusão emocional.
Em qualquer dos exemplos citados, seja havendo propósito de iniciar uma separação com ausência de coragem para enfrentar a situação, seja uma interlocução complicada pois quando tentam se comunicar fazem-no num momento tomado pela emoção e não se consegue nenhum resultado além de ferrenhas discussões apesar do afeto estar preservado, seja um distanciamento que pouco a pouco foi se interpondo entre o casal, levando-os a um indiferentismo, a presença de um profissional no mínimo, colabora muito para a clarificação do quadro. Nunca haverá um aconselhamento: melhor se separarem ou melhor se tolerarem; o objetivo jamais será este. A decisão será sempre do casal. No entanto, no decorrer das sessões, o casal ao exporem seus problemas, fato que muito naturalmente acontece, as queixas são ouvidas, surgindo um fortalecimento de ambos os lados, colaborando para uma clarificação grande. As verdades aparecem, os medos diminuem, a capa nebulosa que encobria o clima se desfaz.
Dizer que sempre será leve e tranqüilo o diálogo na presença da psicóloga, eu estaria dando um colorido ameno que nem sempre acontece pois, há momentos gratificantes e aliviadores mas também há os conflitos maiores onde as verdades ditas serão doloridas para um dos lados. Há casos em que um deles tem a clareza de que o continuísmo não vale a pena, enquanto que para o outro esta decisão é incompreensível por nutrir ou achar que nutre, ainda forte afeto.
O medo das mudanças é inerente ao ser humano. Trata-se de um dos motivos pelos quais muitas vezes, vive-se infeliz por tanto tempo; muitas coisas serão alteradas quando há separação inclusive, o estado civil e isto é um forte componente de se adiar decisões.
Não posso deixar de repetir como fiz acima que há casais que apenas estão em "crise" passageira, mobilizada por um motivo absolutamente contornável e que a terapia entrando como algo esclarecedor auxilia sobremaneira e o par retoma sua convivência com muita tranqüilidade.
Portanto, para finalizar , resumindo: busca-se uma terapia de casal quando um ou ambos percebem algo desconfortável na relação que ao tentarem resolver domesticamente não obtém sucesso.
Temos por obrigação nos preservar ao máximo e sempre evitar não olhar para o que está acontecendo. A verdade sempre vem à tona, mesmo que demande tempo. A terapia, por ter um cunho clarificador, auxilia e muito a verdade se evidenciar.
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Eneida
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